domingo, 20 de abril de 2008

Governo dos EUA aprova microchip subcutâneo

A Food and Drug Administration (FDA), agência federal reguladora de alimentos e remédios, aprovou a comercialização de um microchip aplicado sob a pele, que fornece aos médicos informações básicas sobre os usuários, mas também poderá ser usado na área de segurança, como já ocorre no México.
A empresa Applied Digital anunciou a aprovação oficial do "VeriChip", apresentado como "o primeiro microchip de identificação por freqüências de rádio implantável para uso humano". O produto foi autorizado para "fins clínicos", indicou a companhia, que não esconde porém sua intenção de estender sua aplicação a outras áreas. "Nós estamos promovendo o VeriChip como um meio universal de identificação", diz a empresa em sua página na internet.
"Esperamos que tenha uma enorme variedade de aplicações, incluindo segurança financeira e transportes, acesso a residências e edifícios comerciais e segurança militar e governamental", assinala a companhia.
O "VeriChip" já foi lançado no México no início do ano passado, onde é comercializado pela Solusat, subsidiária da Applied Digital. O microchip é vendido como uma "ferramenta de segurança contra a praga dos seqüestros". Nos Estados Unidos, o produto será usado exclusivamente para fornecer dados sobre alergias, grupo sangüíneo e outras informações médicas.
Mas não é difícil prever um futuro mais amplo para o produto num país onde as medidas de vigilância e segurança foram reforçadas após os atentados de 11 de setembro de 2001. O microchip, cujas informações são lidas através de um aparelho também produzido pela Applied Digital, poderá ser utilizado nos aeroportos, onde os sistemas de controle foram intensificados.
O "VeriChip" é um produto "inerte, encapsulado e energizado", garante seu fabricante. Seu tamanho é equivalente à ponta de uma caneta. Segundo destaca a Applied Digital, o microchip não contém produtos químicos ou baterias e dura até 20 anos. O usuário pagará US$ 9,95 mensais para manter suas informações atualizadas no registro de posicionamento global via satélite. O pagamento "é feito automaticamente através do cartão de crédito do assinante", informa a companhia.



UM MICROCHIP DENTRO DO CORPO
Arlindo Machado
Depois da generalização dos happenings, das performances e das instalações, depois do questionamento do cubo branco dos museus e o salto para o espaço público, depois de ter lançado mão de todas as máquinas e aparelhos da cena tecnológica para produzir imagens, textos e sons de feição industrial, depois ainda de discutir a tragédia da condição humana e de colocar a nu os constrangimentos, as segregações, os interditos derivados do sexo, da raça, da origem geográfica e da condição sócio-econômica, depois de ter experimentado tudo isso, a arte parece agora reorientar-se decididamente para a discussão da própria condição biológica da espécie.
De fato, nos últimos anos, alguns criadores como Orlan e Stelarc vêm se esforçando para trazer à cena cultural a difícil discussão sobre uma possível superação do humano através da intervenção cirúrgica radical, ou da interface da carne com a eletrônica, ou ainda da complementação do corpo biológico com próteses robóticas capazes de ampliar suas potencialidades. Mais do que simplesmente profetizar mudanças profundas em nossa percepção, em nossa concepção de mundo e na reorganização de nossos sistemas sócio-políticos, esse pioneiros vislumbram mutações fundamentais na própria espécie, que poderão inclusive alterar nosso código genético e reorientar o processo linear da evolução darwiniana.
Um importante marco simbólico dessa tendência aconteceu no último dia 11 de novembro na Casa das Rosas, uma espécie de pólo aglutinador das principais tendências de vanguarda da arte brasileira. Nesse dia, o artista Eduardo Kac implantou no interior de seu próprio tornozelo um microchip contendo um número de identificação de nove caracteres e o registrou num banco de dados norte-americano, utilizando a Internet como meio. O microchip é, na verdade, um transponder utilizado na identificação animal em substituição à antiga marcação com ferro quente. Como tal, ele contém um capacitor e uma bobina, todos lacrados hermeticamente em vidro biocompatível, para evitar a rejeição do organismo. O número memorizado no chip pode ser recuperado através de um tracker (scanner portátil que gera um sinal de rádio e energiza o microchip, fazendo-o transmitir de volta o seu número inalterável e irrepetível). A implantação do chip no tornozelo do artista tem um sentido simbólico muito preciso, pois era nesse local que os negros foram marcados a ferro, durante o período da escravidão no Brasil.
A descrição feita acima é bastante simplificada e incompleta. O trabalho abrange ainda uma série de eventos paralelos, relacionados direta ou indiretamente com o implante. Há, em primeiro lugar, o espaço físico da Casa das Rosas, convertido temporariamente numa espécie de quarto de hospital, com instrumental cirúrgico e um médico para atender a eventuais dificuldades, além de ambulância à porta do edifício. Há também uma coleção de fotografias nas paredes com as únicas memórias que restaram da família da avó materna do artista, dizimada na Polônia durante a Segunda Guerra. Há os computadores que permitem acessar o banco de dados nos Estados Unidos, "escanear" o chip por controle remoto através da Internet e disponibilizar, para espectadores situados em qualquer outro lugar do mundo, as imagens do evento através da WWW. Depois do evento, um painel com o raio-X da perna do artista mostrando o microchip implantado foi acrescentado ao local da ocorrência. E como se isso tudo não bastasse, houve ainda a transmissão ao vivo de toda a experiência, através de uma rede comercial de televisão (Canal 21 de São Paulo), além da repercussão na imprensa escrita e no telejornalismo locais antes, durante e depois do evento. Mesmo o artista talvez não tenha sido capaz de prever e dimensionar todas as implicações e conseqüências de sua intervenção. Graças à transmissão televisual e à cobertura jornalística, por exemplo, o implante ultrapassou os limites do gueto intelectual e ganhou uma dimensão pública: no dia seguinte, a estranha história do homem que implantou um chip de identificação no próprio corpo estava sendo contada nos cafés, nos metrôs e nos ambientes de trabalho, por gente que sequer remotamente acompanha a discussão artística.
A intervenção de Kac toca em pontos difíceis e incômodos da discussão ética, filosófica e científica a respeito do futuro da humanidade. Um mês antes do evento na Casa das Rosas, a mesma experiência havia sido proibida no Instituto Cultural Itaú de São Paulo, durante a exposição Arte e Tecnologia, sob a alegação de que a implantação de um chip num ser humano poderia trazer problemas legais à instituição promotora. Nos E.U.A., importantes centros de pesquisa de Chicago e Boston solicitaram cópias dos registros em vídeo para analisar a experiência, enquanto a lista de debates da Wearable Computing discutia intensamente a obra na Internet. O fato de ter despertado polêmica dentro e fora do Brasil constitui o melhor sintoma de que algo importante foi tocado na intervenção de Kac. Da mesma forma como a colocação da bacia sanitária duchampiana no ambiente sagrado do museu desencadeou um número incalculável de conseqüências para a arte e para as demais manifestações da cultura contemporânea, a implantação de um chip no interior do corpo de um artista deverá reacender o debate sobre os rumos que deverão tomar a arte e a espécie humana no limiar do próximo milênio.
Uma vez que Eduardo Kac é um artista e não um ativista político, o evento que realizou na Casa das Rosas permanece aberto às mais variadas interpretações. É possível ler o significado do implante como um alerta sobre formas de vigilância e controle sobre o ser humano que poderão ser adotadas num futuro próximo (a imprensa brasileira explorou muito o evento sobre esse viés interpretativo). Assim, um chip implantado em nosso corpo desde o nascimento poderia ser o nosso único documento de identidade. Sempre que houvesse necessidade de nos identificarmos, seriamos "escaneados" e imediatamente um banco de dados diria quem somos, que fazemos, que tipos de produtos consumimos, se estamos em débito com a receita federal, se estamos respondendo a processo criminal ou se somos foragidos da justiça.
Mas também se pode ler a experiência de Kac numa outra perspectiva, como sintoma de uma mutação biológica que deverá acontecer proximamente, quando memórias digitais forem implantadas em nossos corpos para complementar ou substituir as nossas próprias memórias. Esta última leitura é claramente autorizada pela associação que faz o artista entre a implantação de uma memória numérica em seu próprio corpo e a exposição pública de suas memórias familiares, suas memórias externas, materializadas sob a forma de velhas fotografias de seus antepassados remotos. Essas imagens que estranhamente contextualizam o evento, remetem a pessoas já mortas e que o artista nem chegou a conhecer, mas que foram responsáveis pela "implantação" em seu corpo dos traços genéticos que ele carrega desde a infância e que carregará até a morte. No futuro, ainda portaremos esses traços, ou poderemos substituí-los inteiramente por outros artificiais ou por memórias implantadas? Seremos ainda negros, brancos, mulatos, índios, brasileiros, poloneses, judeus, mulheres, homens, ou compraremos esses traços numa loja de shopping center? Neste caso, poderemos ainda compor família, raça, nacionalidade? Teremos ainda algum passado, uma história, uma "identidade" a preservar?
Até há pouco tempo, a humanidade era entendida, tanto no plano filosófico quanto no nível do senso comum, como alguma coisa que se contrapunha essencialmente às máquinas e às próteses que simulam as funções biológicas। A essência do humano parecia residir ali justamente onde robô falhava e mostrava seus limites. Mas com a evolução da robótica, o autômato foi progressivamente assumindo competências, talentos e até mesmo sensibilidades que supúnhamos específicas de nossa espécie, forçando-nos a um constante deslocamento e a uma contínua redefinição de nossa humanidade. Mais que isso: o desenvolvimento de interfaces húmidas e biocompatíveis estão viabilizando agora a inserção de elementos eletrônicos dentro de nosso próprio corpo, elementos esses que passam a fazer parte daquilo que chamamos de nós. O evento emblemático da Casa das Rosas parece sugerir que o robô, tantas vezes representado na ficção científica como um intruso, um usurpador do lugar dos homens e das mulheres, no futuro poderá estar dentro de nós, ou seja, poderá ser nós mesmos.

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